Bandidos de segunda linha fazem a festa em ''A Favorita''

Quando “Belíssima” estava acabando, Silvio de Abreu se declarou surpreso com a torcida do público pelos vilões. Depois, durante “Paraíso tropical”, Gilberto Braga se disse “pasmo” pelo mesmo motivo. Agora, em “A favorita”, há uma vilã para ninguém botar defeito, Flora, em interpretação maravilhosa de Patrícia Pillar. Mas, nos últimos dias, são as pequenas maldades que vêm roubando a cena.

Falo da dupla Dodi (Murilo Benício) e Silveirinha (Ary Fontoura). Os personagens são assim uma espécie de vilõezinhos de estimação de Flora. E agora do público também. Desde que ficaram confinados num mesmo cafofo, só rola mesquinharia, como as deliciosas discussões por causa da comida ruim e da roupa mal passada. João Emanuel Carneiro me disse que os dois têm um clima à la Tarantino, “porque mostram o lado patético dos bandidos”.


Patético, mas com charme. O trabalho desses dois atores merece todos os elogios. Porém, não se pode falar em Dodi e Silveirinha sem mencionar o figurino, criação de Marie Salles e Antonio Medeiros. Cada detalhe ali revela um pouco da ambição dos dois. São muitos enfeites, estampas, canastrices. Eles querem ser elegantes, mas caem no excesso. Existe, teoricamente, o perigo de os tipos ficarem muito parecidos o que esvaziaria a força de ambos.


Com certeza para evitar isso, o autor apostou numa certa graduação moral diferenciada. Dodi é a expressão concreta da maldade, tem a biografia totalmente comprometida. Já Silveirinha é mais misterioso e humanizado. Um sujeito sempre devotado a alguém. Agora é a Flora, mas antes era a Donatela. E, mesmo que ele não fosse sincero, é um submisso, um tipo que se dobra a alguém mais forte.


João Emanuel dá uma pista sobre isso. “Silveirinha é passível de redenção, pode se arrepender e entregar Flora no final”. Até lá, porém, há muita roupa amassada para nos divertir. Ainda bem.

0 comentários: